11 de Novembro de 2009

Carta Aberta ao Primeiro-ministro 

Carta aberta ao primeiro-ministro José Sócrates

Autor: João Miguel Tavares
Excelentíssimo senhor primeiro-ministro: Sensibilizado com o que tudo indica ser mais uma triste confusão envolvendo o senhor e o seu grande amigo Armando Vara, venho desde já solidarizar-me com a sua pessoa, vítima de uma nova e terrível injustiça. Quererem agora pô-lo numa telenovela - perdoe-me o neologismo - digna do horário nobre da TVI é mais um sintoma do atraso a que chegámos e da falta de atenção das pessoas para as palavras que tão sabiamente proferiu aquando do último congresso do PS:”Em democracia, quem governa é quem o povo escolhe, e não um qualquer director de jornal ou uma qualquer estação de televisão.” O senhor acabou de ser reeleito, o tal director de jornal já se foi embora, a referida estação de televisão mudou de gerência, e mesmo assim continuam a importuná-lo. Que vergonha.
Embora no momento em que escrevo estas linhas não sejam ainda claros todos os contornos das suas amigáveis conversas, parece-me desde já evidente que este caso só pode estar baseado num enorme mal-entendido, provocado pelo facto de o senhor ter a infelicidade de estar para as trapalhadas como o pólen para as abelhas - há aí uma química azarada que não se explica. Os meses passam, as legislaturas sucedem-se, os primos revezam-se e o senhor engenheiro continua a ser alvo de campanhas negras, cabalas, urdiduras e toda a espécie de maldades que podem ser orquestradas contra um primeiro-ministro. Nem um mineiro de carvão tem tanto negrume à sua volta. Depois da licenciatura na Independente, depois dos projectos de engenharia da Guarda, depois do apartamento da Rua Braamcamp, depois do processo Cova da Beira, depois do caso Freeport, eis que a “Face Oculta”, essa investigação com nome de bar de alterne, tinha de vir incomodar uma pessoa tão ocupada. Jesus Cristo nas mãos dos romanos foi mais poupado do que o senhor engenheiro tem sido pela joint venture investigação criminal/comunicação social. Uma infâmia.
Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor engenheiro, de que vossa excelência é uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão. E não duvido por um momento que aquilo que mais deseja é o bem do Pais. É isso que Portugal teima em não perceber: quando uma pessoa quer o melhor para o País e está simultaneamente convencida de que ela própria é a melhor coisa que o País tem, é natural que haja um certo entusiasmo na resolução de problemas, incluindo um ou outro que possa sair fora da sua alçada. Desde quando o excesso de voluntarismo é pecado? Mas eu estou consigo, caro senhor engenheiro. E, com alguma sorte, o procurador-geral da República também.
Atentamente, JMT.
Via 31 da Armada com chamada de atenção no Blasfémias.

10 de Novembro de 2009

Já agora... 

... uma pergunta.
Quando Tabucchi escreve "Mulher de Porto Pim" é um escritor açoriano?

Só podia ser mesmo de esquerda. 

A política cultural seguida nos Açores é distintamente de esquerda, quer pelo carácter actual e cosmopolita, quer pela "protecção" dos seus Arquivos (e tradições), quer ainda pela abertura à investigação, a par da sua contextualizada difusão. Não obstante, devemos promover o conhecimento, de forma mais ou menos lúdica, bem como, estabelecer uma relação mais estreita com a ciência e as novas formas de tecnologia, de modo a que se estabeleçam cumplicidades e a transferência de conhecimento entre áreas distintas (inspirado parcialmente em António Pinto Ribeiro, "À Procura da Escala", Ed. Cotovia, 2009).
Eu sei que ando atrasado alguns dias. Contudo não posso deixar de me referir a esta pérola do Alexandre Pascoal.
Caríssimo Alexandre, é precisamente por causa dessas prespectivas maniqueistas que a cultura Açoriana está no lastimável estado em que está. Talvez, se assim o entendes, é precisamente por ser de esquerda que essa política, ao longo dos anos, deu o deplorável resultado que deu. Politicas culturais socialistas e paternalistas no tempo dos governos do PSD e do comunismo católico do Dr. Mota Amaral, politicas igualmente socialistas e paternalistas no tempo do socialismo agnóstico de Cesar & Ciª ldª
Já agora, essas bolsas que enalteces, são de um miserabilismo tal que até mete nojo. Gostava bem de ver se fosse uma medida de outro partido e tu fosses ainda um simples promotor cultural. O que não dirias, para além do que escreverias.
Por mim não havia nem bolsas nem sequer subsidios. A criação artistica e cultural tem que, de uma vez por todas, deixar de ser um negócio, uma espécie de RSI para intelectuais.
Criar, seja nas artes plásticas, na música ou na literatura é um processo egoista e tem que continuar a ser, sob pena da virmos a assistir a uma globalização da cultura.
Ao contrário do que a maioria dos pseudo cosmopolitas que vós (pseuso intelectuais de erquerda) sois, Eu acho que deve haver uma música açoriana, uma literatura açoriana, uma pintura açoriana e que isto não seja uma espécie de segunda edição da visão neo-darwinista de Vitorino Nemésio. Não é a Ilha a lava e a gaivota que determinam a minha escrita, sou eu que o faço, sem determinismos históricos ou geográficos mas sem renegar a origem do meu saber. Sem peias, sem subsidios, livre de ser e pensar, livre de expressar o meu sentir.

9 de Novembro de 2009

Olha que não parece.... 

Pátria
A distância mata, dizem. Ou pelo menos solidifica uma certa agonia na ansiedade de tentar explicar Portugal. Quero lá saber do sucateiro do regime, da maçonaria, do modesto corrupto dos 10,000 Euros, da queixa-crime contra desconhecidos no jogo de futebol Braga-Benfica, dos barões do PPD, do Hulk, do livro do Sousa Tavares, do programa do Governo, do Deus mal disposto do Saramago, do sistema, da ladroagem, da miséria de Portugal contada às crianças.Deixei de viajar com passaporte português. E também não quero saber.
Carissímo António João
Não me parece que não queiras saber. Bem pelo contrário. Para mim, é bem dificil de perceber que, estando tu aí no país das liberdades e garantias, te incomode tanto o que se passa na Pátria. É caso para dizer que saiste da pátria mas esta não sái de ti. Liberta-te Homem, poeta.

8 de Novembro de 2009

Quem foi que pediu uma Glasnost? 

«O Partido Comunista Português considera que 20 anos após a queda do Muro de Berlim “o mundo está hoje mais injusto, mais desigual, mais perigoso e menos democrático” e que aumentou a “opressão e exploração dos povos – a começar por muitos dos ex-países socialistas, com a regressão de direitos laborais, a privatização de funções do Estado, com a ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados”.»
Notícia da LUSA com base no comunicado do PCP sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim, via o Arrastão.

7 de Novembro de 2009

Limitação de mandatos 


Este Senhor, Franklin Delano Roosevelt , foi a primeiro a suscitar a questão da limitação de mandatos na modernidade, originando a 22ª emenda e foi o único Presidente dos EUA a ser eleito para mais do que dois mandatos, 4 no caso. Já Aristólteles no seu Tratado de Política havia aflorado a questão da alternância do poder.
Como disse aqui, há algum tempo, sou totalmente contra a lei de limitação de mandatos porquanto entendo que é uma lei antidemocrática e que passa um atestado de menoridade aos cidadãos. Nesta mesma linha de pensamento, também não aceito a lei da paridade (os resultados estão bem à vista, menos deputadas, menos autarcas, menos Directoras regionais). Mas, não é por causa dos resultados, é por causa do princípio e dos argumentos.
A democracia, tal como a conhecemos, é um sistema de governo de iguais para iguais. Então, se é de iguais para iguais, limitar a escolha, pelos iguais, do acesso de um igual a um cargo de poder, é coarctar a liberdade de escolha dos iguais e fazer de um igual um menos igual.
Obviamente, este debate ressuscitou por causa das declarações de Cesar a abrir a possibilidade de um novo mandato e as recentes dúvidas levantadas por Jorge Miranda (dúvidas que residem apenas no espirito da lei, entenda-se) sobre essa possibilidade. Por mim, tanto se me dá como se me deu que Cesar seja candidato em 2012, os iguais que escolham, eu sempre direi que, sendo igual, não tenho culpa, não votei nem voto Carlos Cesar. Porém, parece-me despropositada a preocupação quer de socialistas quer de social-democratas sobre esta questão.
Na verdade, o que essa preocupação reflecte é: Por parte do PSD uma enorme descrença na possibilidade da sua líder vencer Carlos Cesar; Por parte do PS uma escandalosa crença de que o PS sem Cesar não será coisa alguma.
Afinal quase concordo com a lei, não estamos entre iguais mas entre um iluminado e uma manada de animais domésticos na perspectiva Aristotélica.

6 de Novembro de 2009

O debate à volta da falta dele 

Voltam a estar na ordem do dia questões relacionadas com a falta de liberdade do cidadão europeu ( se é que existe uma Cidadania Europeia) por causa das restrições de acesso à Internet que a Comissão tentou impor e que, o Conselho e a comissão parlamentar que representa (será que representa?) o Parlamento Europeu, decidiram aceitar desde que, “ só poderão ser impostas se forem necessárias, proporcionais e apropriadas a uma sociedade democrática”.
Esta questão que, fico ainda na duvida se é de relevante importância ou se, pelo contrário, é uma minudência, é mais um exemplo de como a Europa nos está a ser imposta e de que forma depois de imposta ela se aceita sem reacção.
Primeiro, é bom de saber o que são imposições e restrições ao acesso à informação “necessárias, proporcionais e apropriadas a uma sociedade democrática”. E, depois, é preciso saber se essa legislação europeia saída de um directório e não de um parlamento, não atropela Direitos Liberdades Garantias consagrados em diplomas constitucionais de alguns dos Estados Membros.
Segundo o Jornal Público, "Com a decisão checa da passada terça-feira, removendo o último obstáculo legal à entrada em vigor do novo tratado europeu, Cameron fez o que disse que faria. Anunciou a sua desistência do referendo, mas prometeu um conjunto de medidas destinadas a colmatar os seus efeitos e a impedir novas transferências de soberania para Bruxelas. Contava com isso apaziguar a ala mais nacionalista dos conservadores e dar um sinal positivo aos parceiros europeus. O tiro não está a sair-lhe tão certeiro como desejaria. Nem acalmou os tories, nem parece ter conseguido tranquilizar as capitais europeias.
Numa entrevista ao diário londrino The Guardian, Pierre Lellouche, braço-direito do Presidente Sarkozy para a política europeia e o mais "anglófilo" dos políticos franceses, classificou de "autista" a teimosia antieuropeia dos conservadores britânicos. "É muito triste ver a Grã-Bretanha, tão importante na Europa, afastar-se do resto da UE e desaparecer dos ecrãs dos radares."
O que, os mais euro-entusiastas se têm esquecido, neste domínio, é que os Ingleses, Tories ou Trabalhistas, não são euro-sépticos porque sim. Na verdade, o cerne da questão reside no facto dos Ingleses viverem numa "lastrada" democracia parlamentar imanada de um direito consuetudinário e serem muito ciosos das suas liberdades individuais. Uns e outros, Conservadores ou Trabalhistas, são de matriz liberal e parlamentaristas puros.
Aquilo que este novo documento, “Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa”, travestido de Tratado de Lisboa nos oferece, não é aceitável para as velhas e lastradas democracias parlamentares. Na realidade, estamos perante uma substituição do parlamentarismo por um novo sistema, perigoso que concentra a grande maioria do poder legislativo no poder executivo constituído por dois directórios que não são eleitos mas escolhidos por uma espécie de iluminados, reduzindo a cinzas o principio fundamental da separação de poderes. Isso, na cabeça dos Ingleses, é inaceitável, tal como devia ser nas nossas cabeças. Contudo falta fazer o debate e falta explanar aos nossos iguais que é isto que está em cima da mesa e que é esse o problema fulcral que cria relutâncias aos súbditos de Sua Majestade a Rainha de Inglaterra. Todo o resto é folclore.

6 anos de :Ilhas. 

Foi há seis anos com um Post do Pedro Arruda que, entretando os deixou, que começou o :Ilhas.
Parabéns aos resistentes João Nuno Almeida e Sousa, Alexandre Pascoal e Carlos Rodrigues. Venham mais 6 e mais escribas ou, pelo menos, mais escritos.
PS: Faltou-me mencionar a Olímpia Granada. Peço desculpa á Senhora da casa.

5 de Novembro de 2009

Mais do mesmo até ao fundo. 

Do debate parlamentar de hoje que, fui ouvindo ao “bochechos” nas rádios, além do ar pouco elevado com que Sócrates (de novo arrogante) se dirige aos Deputados, ressalta a insistência nas grandes obras públicas e na manutenção do Estado-social tal como o conhecemos.
Vai ser mesmo preciso bater no fundo para que alguém se lembre que só mudando os métodos se mudam os resultados, nessa altura será tarde para despertar a sociedade civil, já estaremos sob a tutela de um qualquer ditador.
Citarei, a esse respeito, novamente, Rousseau no seu Contrato Social, “O povo de Inglaterra considera-se livre, mas está redondamente enganado: só é livre durante as eleições parlamentares. Mal os deputados são eleitos, a escravatura passa a vigorar e o povo fica reduzido a nada . A utilização que faz dos escassos momentos de liberdade de que goza mostra bem que merece perdê-los”.

4 de Novembro de 2009

Frase do dia. 

A Beiça: “Portugal tem um ministro na rota do empobrecimento mas com indicadores do caraças”

O processo de porreirização em curso e o movimento dos descasados. 

Sem tempo para leituras que não sejam as que a empreitada académica a que me propus me obriga. E com menos tempo ainda para escrevinhar, tenho-me ficado pelos meus blogues de preferência.
A ler, na íntegra e obrigatoriamente, mais este excelente post do Professor José Adelino Maltez no seu mais do que obrigatório - para qualquer cidadão e por maioria de razão para os aprendizes de politólogos, - Sobre o Tempo que Passa.
(...) Por cá, basta recordar a guerra das portagens que antecedeu o "tabu" de Cavaco, enquanto Primeiro-Ministro. Do lado da governança do Estado-Laranja estava um tal de Dias Loureiro. Do lado do PS, um tal de Armando Vara. Agora, entre os dois, nem o Diabo quer escolher. Basta ver quem é o actual administrador da Lusoponte e o que levou os irmãos-Pinto à condenação... (...)

2 de Novembro de 2009

Poesia Ingénua. 

Açores

Viagem espectacular
Este passeio aos Açores
Com hortenses de encantar
Bem bonitas as flores

Saímos de manhãzinha
Toda a gente madrugou
Foi o meu baptismo de voo
Subi aquela escadinha
E depois já sentadinha
Eu comecei a rezar
Meu coração a apertar
Lá fui naquele avião
Viagem espectacular

Lá chegamos à Terceira
uma ilha maravilhosa
Era um sonho cor-de-rosa
Que eu tinha desde solteira
Com companheiros à maneira
Foram todos uns amores
Fiquei a dever favores
Pois foi tudo muito querido
Ajudando o meu marido
Neste passeio aos Açores

Chegamos ao Pico à tardinha
Ao nome não era alheia
Pois chamam à minha aldeia
Esse nome, por gracinha
Vimos as curraletas e a vinha
E continuando a passear
As vaquinhas a pastar
Viam-se por todos os lados
E aqueles grandes valados
Com hortenses de encantar

Depois S. Jorge e o Faial
A seguir Ponta Delgada
Uma princesa encantada
S. Miguel a capital
O cozido tradicional
Seus magníficos sabores
Fomos visitar uns senhores
Uns amigos cá da terra
A nossa visita encerra
Bem bonitas as flores

Maria do Monte
(Uma septuagenária que se auto classifica de repentista, de Ferreira do Alentejo, mulher e mãe de agricultores, visitou por uma vez os Açores, há algum tempo, e ainda hoje diz de memória estes versos).

1 de Novembro de 2009

O regime, fiel defunto? 

O regime está cheio de gente sem histórias para contar e com estórias que não podem ser contadas.
Um regime assim, é um regime moribundo.